Uma história de um pensamento.
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- Já tá pronto? Tá na hora !
Ele riu, não sem antes abaixar a cabeça daquele jeito charmoso, deixando algumas mexas do cabelo preto se espalharem pela testa. Não sabia o quanto aquele gesto era automático e inconsciente e o quanto ele o fazia só para me provocar.
- Você, sempre tão apressada. - disse-me.
- Você, sempre tão calmo. Na verdade nem sei se existe uma palavra pra descrever a sua personalidade. É algo como... ''não me importo se o mundo está acabando lá fora, continuarei o que estou fazendo''.
Riu de novo, tive medo de que fosse uma confirmação. Droga, por que é que eu tinha sempre de parecer a idiota ?! Não importa o quanto estivesse certa, quanto tivesse certeza do que digo, ele sempre me deixava parecendo uma criança...como se sempre soubesse mais do que eu, como se tudo o que eu disesse fosse extremamente óbvio. Será que um dia conseguiria de fato surpreendê-lo ?
Neste exato momento me diverti imaginando uma cena de filme estúpida na cabeça. Uma granada, de repente tirada da bolsa, eu a destampava cuidadosamente com a boca, jogava aos fundos da casa e abria a porta, saindo despreocupada enquanto ele se sobressaltava e corria. Um sorriso malicioso surgiu em minha boca. Depois me balancei levemente tendo noção do quanto aquilo era ridículo , ainda assim não tive certeza do quanto este ato o provaria.
- Que foi? - me perguntou, tirando-me dos devaneios.
- Hmm...nada - fitei-o brevemente.
Deu uns dois passos em minha direção, parou a alguns centímetros de distância e fechou os braços por volta de minha cintura ao me puxar delicadamente para me encostar à seu corpo. Pousou os lábios por um tempo razoavelmente longo em minha testa e fechou os olhos. Não sei por que aquela situação me incomodou, fiquei confusa e sem saber o que fazer.
Desgrudou a boca de minha testa, mas sem soltar os braços.
- Sabe, hoje tenho uma surpresa pra você.
Instintivamente olhei para o lado, já indagando o que seria. Percebi que ele me observava.
- Golpe baixo, sabe que sou curiosa.
- Sei, por isso mesmo gosto de provocar.
Ficamos em silêncio por um instante e como ele não disse nada...
- E então, não vai me contar o que é ?
- Se eu contar, não vai ser mais surpresa. - deu um sorrisinho.
- Então nem tivesse falado.
- Não estava com pressa ? - tentou uma distração.
Nem precisei responder, uma buzina de carro soou lá de fora, percebi que realmente estávamos atrasados e de forma literal entrelaçados. Soltamo-nos. Mas não estava mais ligando, o fator surpresa tomou conta dos pensamentos.
Droga, de novo, por que é que quando estou com ele torno-me tão influenciável ? De qualquer maneira faria o máximo para não transparecer, o máximo para me manter firme no que quer que seja, farei isto antes que minha postura me delate e estrague tudo, de novo.

