segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Uma história de dois pensamentos



E ela surge, as vezes, nos cômodos, me chamando...mas não sem antes lançar-me aquele olhar cauteloso, olhos arregalados de tanta expressividade que mal podiam caber em seu próprio rosto delicado.
Sua voz não era de toda linear, ainda restavam entonações hesitantes...mesmo assim sempre cheia de idéias. Não me espantava que sua mente fosse um turbilhão.
E o que poderia ter sido uma fração de segundo se tornou o tempo para que eu a contemplasse antes que a voz feminina de repente cortasse o ar:
-Já tá pronto ? Tá na hora !
Eu sorri, não sei por quê algo no seu jeito de falar fora engraçado.
-Você, sempre tão apressada. - eu disse com um pouco de curiosidade calculada.
-Você, sempre tão calmo - contra-atacou, e terminou dizendo algo sobre minha aparente despreocupação, não era a primeira pessoa que me dizia isso e tinha certeza de que não seria a última.
E de novo entrou naquele seu transe, já estava quase me acostumando, mas sempre tinha que a chamar de volta antes que as pessoas reparassem ou eu simplesmente começar a me sentir incomodado por não conseguir decifrar seus pensamentos.
Sabia que ia desconversar e então se fez silêncio, como costuma acontecer conosco, mas para alguns momentos as palavras não bastariam. Tudo o que podia caber nestes momentos é o abraço e a paz dos corpos que se encontram, e as vezes, era tudo o que eu podia oferecer.
Lhe dei um beijo carinhoso na testa e sabia que aquilo poderia a desconfortar. Era como se tivesse medo, não de mim, mas de alguma coisa que eu fosse trazer à tona, talvez um sentimento, ela detestava se sentir vulnerável, disso eu já sabia.
Lembrei-me de algo que tinha em mente havia tempos, e, particularmente, matutei mais do que nunca durante esta noite:
-Sabe, tenho uma surpresa pra você.
Se houvesse algo para comparar a velocidade de sua reação àquelas palavras eu iria dizer que foi como uma bala disparada sem nenhuma cerimônia, encontrando certeira o seu alvo.
Ela fez charminho pra eu contar, e confesso que gosto de suas birras sutilmente mal-criadas. Além de que provocá-la era um de meus passatempos preferidos.
O carro buzinou da rua, estava na hora e seria hoje. Não sei se estava preparado, não sei se esta garota que se encontrava em minha frente naquele exato momento estava. Tantas coisas iam mudar agora, disto eu tinha certeza. Mas como, como elas mudariam ?
Que circunstâncias teríamos de enfrentar juntos, ou separados ?
Eu não podia mais arrastar isso, e dependia de mim. A vida com ela havia sido um jogo, um encatamento à parte, à parte de minha rotina comum, de minha vida comum e das pessoas comuns. Tudo era estranho, parecia o caminho mais difícil a se trilhar. Mas era o meu caminho, e seria com ela.